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Linha White

Perturbações do Comportamento Alimentar

Diz-se frequentemente que as Perturbações do Comportamento Alimentar são “doenças da moda”, ou que são próprias de quem tem “a mania das magrezas”. Estas falsas crenças não passam de mero desconhecimento em relação a estas doenças. Na realidade são perturbações mentais que provocam grande sofrimento a quem por elas passa estendendo-se às suas famílias, trazendo graves consequências físicas e psicológicas podendo pôr em risco a própria vida. Este desconhecimento leva a que familiares e amigos, por vezes, não as detectem atempadamente e só se apercebam da existência da doença quando esta já se encontra num estado avançado. O Doente, apesar de reconhecer a necessidade de tratamento, recusa aceitar a gravidade da situação e opõe-se a aumentar de peso e mudar comportamentos, não sentindo a sua vida ameaçada.

Estas doenças ocorrem predominantemente em mulheres jovens e caracterizam-se por uma preocupação excessiva com o peso e imagem corporal que são a principal fonte de auto-estima. A etiologia é multifactorial (resulta da interacção entre factores biológicos, psicológicos, familiares e socioculturais) pelo que devem ser entendidas e abordadas numa perspectiva multidimensional valorizando-se o contexto biopsicossocial (biológico, psicológico e social) do individuo de modo a assegurar o êxito do tratamento.

É importante que não se confundam hábitos alimentares desadequados (preocupações com peso e alimentação restringida) com Perturbações de Comportamento Alimentar. Enquanto um padrão de uma alimentação desadequada é uma reacção habitual a situações de vida, uma Perturbação Alimentar é uma doença mental. Além disso, os hábitos alimentares desadequados não são habitualmente acompanhados por pensamentos frequentes de comida, alimentação e aparência física. Pessoas com Perturbações Alimentares, têm pensamentos compulsivos sobre comida, alimentação e com o seu próprio corpo. Estes pensamentos passam a controlar as suas vidas estando presentes no seu funcionamento diário. Enquanto as alimentações desordenadas ou hábitos alimentares desadequados, podem conduzir a mudanças de peso transitórias e problemas nutricionais, grandes complicações médicas são muito raras, ao contrário do que acontece nas Perturbações Alimentares,  que habitualmente levam a sérios problemas de saúde, com uma taxa de mortalidade de 2 a 10%. Finalmente, cada condição é tratada diferenciadamente. A alimentação desadequada requer educação e o problema poderá diminuir sem tratamento. As Perturbações Alimentares, requerem tratamento médico e de saúde mental específicos, na maioria dos casos prolongados, sem os quais o problema persistirá.

 

 

Anorexia Nervosa

 

A Anorexia Nervosa não é uma doença moderna, no sentido de ser uma síndroma que tenha surgido na época contemporânea, acontece que, quanto mais se investiga o passado, mais se descobre a presença desta perturbação ao longo dos séculos, apesar de alguns aspectos de que hoje se reveste e a situação em que se enquadra serem novos e representativos da cultura actual.

A palavra Anorexia deriva do grego e significa “falta de apetite”. É consensual que já no século XII se podiam encontrar alguns dos traços característicos do que hoje é descrito como Anorexia Nervosa do Tipo Restritivo apesar das descrições clínicas aparecerem mais tarde. Era frequente encontrar Anorexia entre as mulheres religiosas que eram canonizadas devido às suas práticas de jejum.

Esta doença afecta sobretudo, jovens adolescentes do sexo feminino, mas, pode ocorrer em pessoas de ambos os sexos e das mais variadas idades, surgindo de um modo geral, em adolescentes com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos, ocorrendo o seu desenvolvimento em média por volta dos 17 anos e raramente depois dos 40, variando muito a sua evolução. Estudos apontam para uma prevalência de cerca de 0,5% na população feminina e de cerca de um décimo da das mulheres, na população masculina. Dados referentes a pessoas internadas revelam que a mortalidade a longo termo é de cerca de 10% e que a morte pode surgir por inanição, alterações hidro-electrolíticas e suicídio, sendo uma das doenças psiquiátricas que apresenta a taxa de mortalidade mais elevada.

Na Anorexia Nervosa existe uma recusa em manter um peso corporal igual ou superior ao minimamente normal para a idade e altura (por exemplo, perda de peso que leva a manter um peso inferior a 85% do esperado ou a incapacidade em ganhar o peso esperado para o crescimento, ficando aquém do previsto). Esta recusa deve-se a um medo intenso de ganhar peso ou de engordar, mesmo quando o peso é insuficiente. Existe uma perturbação na apreciação do peso e forma corporal, indevida influência do peso e forma corporal na auto-avaliação, ou negação da gravidade do grande emagrecimento actual. Esta doença tem como critério de diagnostico a amenorreia - ausência de pelo menos 3 ciclos menstruais consecutivos. Pode ser do Tipo Restritivo, em que a pessoa não recorre regularmente a ingestão compulsiva de alimentos nem a purgantes (por exemplo, vómito ou abuso de laxantes, diúreticos e enemas), ou do Tipo Ingestão Compulsiva/ Tipo Purgativo em que a pessoa tem comportamentos bulímicos ou purgativos (vómitos ou abuso de laxantes, diuréticos e enemas) e aumento ou excesso de exercício físico.

Os sintomas de Anorexia Nervosa mais comuns são dores de cabeça, ansiedade, irritabilidade, perturbações do sono (mais frequentemente a insónia), fadiga, dores abdominais, diminuição do interesse sexual, obstipação, intolerância ao frio, letargia e excesso de energia, amenorreia, depressão e alterações da personalidade, destacando-se como consequências físicas a inanição, bradicárdia, pressão arterial fraca, défice de estrogénio, baixa temperatura corporal (especialmente nas extremidades), pele seca, cabelo quebradiço e queda de cabelo, unhas quebradiças e pele com um tom amarelado (especialmente as palmas das mãos), podendo algumas pessoas desenvolver lanugo (fina penugem no tronco). Ainda o desenvolvimento da anemia normocítica, função renal diminuída, problemas cardiovasculares, problemas dentários e osteoporose.

             

 

Bulimia Nervosa

 

A palavra Bulimia deriva dos termos gregos bous, que significa boi e limos que significa fome, que usados conjuntamente descreviam uma fome de alguém que era capaz de comer um boi. No latim medieval fala-se de bulismos ou bolismus, que no francês medieval se dizia bolisme, significando um apetite insaciável.

No tempo de César (700 A.C.), os comportamentos bulímicos estavam amplamente difundidos o que pode ser demonstrado pela presença de vomitórios nas salas de banquete das casas mais abastadas que serviam para os patrícios esvaziarem os estômagos e continuarem a comer. Na época romana imperial, o comportamento bulímico seria provavelmente normativo dentro de uma camada social com maior acesso à riqueza e os episódios de “empanturramento” e indução do vómito constituiriam uma norma cultural específica, no entanto, este comportamento não estaria associado à preocupação com a imagem corporal nem ao medo de engordar.

Apesar de a Bulimia e Anorexia Nervosa não serem  doenças modernas a Bulimia está mais relacionada com a Sociedade Ocidental dos nossos dias, pois os Doentes com esta Perturbação do Comportamento Alimentar são o elo mais frágil, uma vez que os meios de comunicação de massas por um lado apelam ao consumo alimentar hiper-calórico, por outro ao culto do corpo magro.

É uma doença mais silenciosa do que a Anorexia Nervosa uma vez que não está associada a grandes perdas nem a aumentos de peso, podendo passar despercebida a familiares e amigos. O facto de estes indivíduos parecerem estar de plena saúde dificulta a sua identificação.

A Bulimia Nervosa inicia-se habitualmente mais tarde do que a Anorexia Nervosa surgindo geralmente no final da adolescência ou no inicio da idade adulta, tendo uma prevalência entre 1 a 2% nas mulheres com idades compreendidas entre os 16 e os 40 anos. Esta doença caracteriza-se pela existência de episódios recorrentes de ingestão alimentar compulsiva, caracterizados por comer num período curto de tempo uma quantidade de alimentos que é definitivamente superior à que a maioria das pessoas comeria num período de tempo semelhante e nas mesmas circunstâncias. Verifica-se uma tendência para ingestão de comida altamente calórica, de pouca qualidade alimentar, como doces, bolachas e batatas fritas. Rapidamente surge a sensação de perda de controlo sobre o acto de comer durante o episódio (por exemplo, sentimento de incapacidade para parar de comer ou controlar a quantidade e qualidade dos alimentos), surgem sentimentos de culpa, de ineficácia, de baixa auto-estima e angustia. Estes episódios são habitualmente praticados às escondidas, sendo frequente estas pessoas levarem a comida para locais seguros onde sabem que não irão ser descobertas (por exemplo para o quarto). Para libertar o que foi ingerido durante o episódio verifica-se um comportamento compensatório inapropriado recorrente para impedir o ganho ponderal, tal como vomitar, usar laxantes, diuréticos, enemas ou outros medicamentos, fazer jejum ou exercício físico excessivo, ocorrendo estes comportamentos, em média, pelo menos duas vezes por semana, em três meses consecutivos. A auto-avaliação é indevidamente influenciada pelo peso e forma corporais e não ocorre exclusivamente durante os episódios de Anorexia Nervosa.

Contrariamente ao que muitas pessoas possam pensar, a Bulimia Nervosa não envolve sempre o vomito auto-provocado depois da ingestão alimentar compulsiva. Entre 80 a 90% destes indivíduos recorrem à indução do vomito como mecanismo compensatório e um terço usa laxantes. Existe o Tipo Purgativo em que a pessoa realmente induz regularmente o vómito ou abusa de laxantes, diuréticos ou enemas, e o Tipo Não Purgativo em que a pessoa usa outros comportamentos compensatórios inapropriados, tais como jejum ou exercício físico excessivo, mas não induz o vómito nem abusa de laxantes, diuréticos e enemas.

Os sintomas de Bulimia Nervosa mais comuns são dores de cabeça, fadiga, dores abdominais, vómitos recorrentes, azia, obstipação intestinal e ciclos menstruais irregulares. Como sintomas psicológicos, a depressão, alterações do humor, obsessão por dietas, pensamentos frequentes acerca de comida, pensamentos de culpa depois de comer, auto-estima determinada pelo peso, isolamento social (evitam restaurantes, refeições familiares, encontros sociais), destacando-se alguns sinais físicos como a erosão do esmalte dentário, cáries dentárias, inchaço das glândulas parótidas e escaras na superfície das mãos devido à indução do vómito.

 

 

Perturbação da Ingestão Alimentar Compulsiva – Binge Eating

 

A Perturbação da Ingestão Alimentar Compulsiva ou Binge Eating é das perturbações alimentares a que tem a descrição mais recente e, segundo alguns estudos a que apresenta a maior prevalência não só entre os doentes com perturbações do comportamento alimentar (30%) como na população geral (4,6%).

Os indivíduos com perturbação de ingestão alimentar compulsiva são geralmente adultos e frequentemente recorrem a tratamento para a obesidade. Ao contrário do que é mais comum na Anorexia e Bulimia Nervosa, esta doença também afecta os homens, sendo a perturbação alimentar que regista menos diferença entre os sexos.

Este distúrbio do comportamento alimentar é caracterizado pela ingestão descontrolada de comida e consequente aumento de peso. Tal como na Bulimia Nervosa existem episódios frequentes de ingestão alimentar compulsiva que tendem a ser desencadeados devido a alterações de humor, tensões emocionais ou problemas do dia-a-dia, funcionando esta ingestão de comida como um ansiolítico que tem como função a estabilização emocional mas, contrariamente à Bulimia Nervosa, os pacientes com esta perturbação não utilizam métodos de compensação (purga, abuso laxantes, jejum ou o exercício físico excessivo) nem exibem regras rígidas de dieta. Habitualmente esta perturbação associa-se a uma tendência para a sobrealimentação sendo que, a maioria dos sujeitos têm excesso de peso ou são obesos. Como na Bulimia Nervosa verifica-se falta de controlo sobre a alimentação, manifestada na forma de grandes ingestões alimentares (sem existir fome), que são efectuados num curto espaço de tempo, ficando o sentimento de culpa, ineficácia e desgosto após o episodio. As ingestões causam mal-estar no indivíduo, preocupações com os efeitos da ingestão sobre o peso e a imagem corporal, e devem ter uma frequência de, pelo menos, duas vezes por semana, durante um período de seis meses para que seja diagnosticada a doença. Os episódios estão frequentemente associados à ingestão mais rápida do que o habitual de grandes quantidades, de comer sem sentir fome e de comer sozinho com grande voracidade.

Tem como sintomas físicos oscilações constantes de peso e como sintomas psicológicos a depressão, ansiedade, sentimentos de culpa, sentimentos de ineficácia, pensamentos frequentes sobre comida, isolamento social e pensamentos suicidas. Como consequências, a obesidade, diabetes, colesterol elevado, pressão arterial elevada, problemas respiratórios, renais, ósseos, artrites, problemas de pele e menstruação irregular.

 

Tratando-se de disfunções a nível mental, o acompanhamento psicológico é fundamental para o tratamento destas doenças, sendo também muito importante o apoio familiar. O tratamento passa por um plano estruturado que integra acompanhamento psicológico, aconselhamento familiar e reabilitação nutricional. O acompanhamento psicológico visa mudar comportamentos alimentares bem como identificar e corrigir pensamentos, crenças e sentimentos que perpetuam esses comportamentos e dificultam a sua modificação.

 

 

Catarina de Castro Lopes 

Directora Clínica de Psicologia na White